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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Enquanto Você Dormia


Três da madrugada e Rita se encolhia contra a cabeceira da cama, o quarto iluminado apenas pelo reflexo da televisão ligada. Os olhos ardiam, a cabeça pesava, mas continuava segurando o controle remoto, mudando distraidamente de canal, sem procurar por nada na verdade. O ruído provocado pelo ronco do Chico, deitado ao lado dormindo com a boca aberta, a impedia de pegar no sono e, a cada segundo que passava, a enchia de uma angústia que só aumentava.

Mudou de canal e a televisão mostrou um palestrante de voz monótona, falando sobre trabalho. “O trabalho é que impulsiona o homem. Investimentos, negociações, desafios, competições, lucro, realizações. O homem foi criado para trabalhar e nessa tarefa ele se esmera, se empenha, se esgota até”. Rita riu consigo mesma, com amargura. “É, o trabalho é que move o homem. Mas o trabalho também move a mulher – geralmente na direção de um homem que trabalhe menos que o dela”. Olhou para Chico que roncava cada vez mais alto, exausto do dia de trabalho e teve vontade de chorar.

A vida deles era um inferno. Ele estava tão concentrado em trabalhar, crescer, ter sucesso, ser o melhor, que se tornava cada vez mais ausente e aéreo. Frio, quase indiferente. O pensamento sempre longe, tramando a próxima ação, prevendo reações, planejando. Enquanto ela, Rita, cansada de procurar pelos olhos fugidios do marido, se deitava e assistia à televisão durante horas a fio, incapaz de adormecer, sentindo-se absurdamente vazia. Frustrada, ferida por ser relegada a segundo plano.

O ressentimento pelo tom de voz impessoal, pelo desinteresse por qualquer outro assunto que não fosse o trabalho crescia. Ela se aborrecia ouvindo-o descrever duas, três, cinco vezes o mesmo problema, o mesmo empecilho, a mesma transação. E quando tentava conversar, pedir, demonstrar alguma contrariedade com a ladainha, ele se irritava, acusando-a de falta de companheirismo.

Rita se perguntava, cada vez com mais freqüência, o que é mesmo que estava fazendo ali.

Não conseguia reprimir a sensação de ser inútil, a não ser para os momentos em que, tomado de lubricidade, Chico a procurava entre os lençóis, não se importando se estava dormindo ou se estava disposta. Nesses momentos é que se sentia mais inútil e idiota, ele não a desejava, apenas desaguava nela suas necessidades. Sentia-se prestes a enlouquecer.

Levantou-se da cama e caminhou em direção ao banheiro, arrastando os chinelos, sentindo-se tão arrasada que sequer conseguia endireitar os ombros. Parecia que o peso do mundo vergava-lhe as costas. Acendeu a luz, tirou a roupa e se olhou no espelho. Era jovem ainda, nem atingira os quarenta e vinha se sentindo lixo. Os olhos estavam fundos, o rosto abatido. Mas o corpo era bonito, a cor dos cabelos castanhos era viva, natural, os lábios eram cheios e rosados.

Tocou a própria face, lembrando como os homens costumavam achá-la atraente, o quanto já tinha sido feliz, bonita, amada. E agora? Será que ainda podia?

Pensou no rapaz que a abordara no supermercado naquela mesma tarde. Tão jovem, e tão galanteador. Estaria ele sendo sincero? Outro homem poderia querê-la de verdade, dar-lhe valor? Ah, como desejava inspirar o desejo de um homem novamente, como doía a indiferença do marido!

Suspirando, entrou sob a água mais quente que podia suportar, como se procurasse lavar de si toda a dor, a tristeza, a confusão que vinha sentindo. Esfregou-se vigorosamente, sentiu os músculos relaxarem.

Trinta minutos depois, saía de dentro do boxe para o banheiro enfumaçado sentindo-se bastante melhor. Limpou o embaçado do espelho com a mão molhada, e surpreendeu-se com a própria imagem. Os olhos, antes embaciados, agora brilhavam e as faces estavam coradas. Ante o inesperado, riu satisfeita para si mesma no espelho, notando mais outra coisa: o rosto ainda fazia covinhas quando sorria!

Sentindo-se leve como há tempos não sentia, Rita enxugou-se e passou ao quarto, parando diante do marido, que agora babava pelo canto da boca, espalhado na cama toda.

Repentinamente, a mágoa que vinha alimentando contra o Chico se dissipou e deu lugar a uma intensa sensação de pena, mesclada a alívio. Ele era tão infeliz e nem se dava conta! Era sozinho, não tinha amigos, nem filhos, nem prazeres. Será que ainda perceberia isso? Ao mesmo tempo, teve a certeza de que não amava mais aquele homem, não tinha porque continuar ao lado dele. Sentiu-se livre, pronta para viver outra vez.

Abriu o armário decidida e jogou algumas roupas dentro de uma sacola. Dormiria num hotel pelo resto da madrugada – e boa parte da manhã – e, no dia seguinte, viria pegar o resto de suas coisas. Escreveu um bilhete pra que ele não se preocupasse, embora ela duvidasse disso. Pobre Chico. Trabalhava tanto que não tinha nada. E acabara de perder a mulher.

Lívia Santana.
Uberlândia - 07/2005
Imagem: autor desconhecido.

Tea For Two


Esta tarde bateram à minha porta devagarinho. Um. Dois. Três. Era Tristeza, uma velha amiga. Talvez amiga seja a palavra errada, já que nem gosto muito dela. Mas quando alguém o conhece há tanto tempo e tão bem quanto ela, é difícil chamá-lo por outro nome que não amigo, ainda que impróprio. Acostumei-me à presença dela, é a verdade. Fica sendo amiga, pois. Bateu à porta e convidei-a a tomar chá. Sentamo-nos e houve um silêncio prolongado. Sem constrangimento, sem desconforto. Apenas intimidade, entendimento. Ela sabia que eu não queria falar. Somente fez-me companhia. A noite foi caindo e ela acendeu os abajoures. Sentia-se em casa, tão assídua era naquela sala. Escolheu um disco de blues azul e ofereceu-me o colo, sem dizer palavra. Deixei-a acariciar-me os cabelos por longas horas, até que bateram novamente à porta. Tristeza beijou-me em despedida e abriu a porta, dando passagem a Solidão, meu fiel companheiro noturno, com quem divido a minha insônia.

Lívia Santana.
Uberlândia - 07/2005
Imagem: Bruno Dias.

Doentiamente


Teresa pode ser descrita por advérbios: imensamente solitária, pateticamente carente, visceralmente insegura, dolorosamente instável. Não é muito afetada pela realidade e pelas pessoas que vivem nela: enxerga o mundo de um jeito bem particular. Consome altas doses de nicotina – o melhor remédio pras freqüentes crises de tristeza paranóica. Tem habilidades medíocres, razão pela qual trabalha muito e arduamente. Os olhos verdes são muito claros e os cabelos artificialmente louros. O corpo é delicado e excessivamente bronzeado. Bonita e atraente, motivos de trazer o coração repleto de amargura e cicatrizes mal curadas. Seu grande objeto de afeição é Alice. A única capaz de ouvi-la e entendê-la. Capaz de aconselhar e conversar com ela durante horas. Capaz de dividir a casa e fazer-lhe companhia. Teresa admira muito Alice. Não passa um dia em que não queira ser como ela. Tão forte, serena, graciosa. Tão perspicaz e calculista. Tão independente, manipuladora e egoísta. Alice é a melhor amiga de Teresa – é o que esta declara devotadamente aos quatro cantos. A convivência das duas é extremamente harmônica: Teresa dedica-se a satisfazer, cuidadosamente, cada capricho de Alice. Sem perguntas, sem queixas. Simples assim. A satisfação de uma é o escopo principal da vida da outra. Teresa trabalha, mantém a casa, alimenta a ambas. Alice ocupa-se em dormir, se espalhar por toda a casa, tomar sol e, principalmente, dirigir a vida de Teresa – a diversão predileta. A distração de Teresa é usar a internet pela madrugada, ocasião em que pode ter contato com pessoas e fazê-las acreditar que é exatamente como gostaria. Corajosa, alegre, genial. Maravilhosa. Mas nem sempre Alice permite que ela se entregue ao passatempo, reivindicando peremptoriamente a atenção da amiga pra si. Ela dá palpites e ordens, zomba da fragilidade e frustra sem pestanejar os planos de Teresa. Alice vive feliz, em detrimento de Teresa. Esta depende da outra e a idolatra de tal maneira, que vive convicta de que mimá-la é a felicidade que pode ter. Sempre existirão os fracos e os fortes e, em relacionamentos é muito comum que aqueles dominem a estes. E nesse caso também seria, se Alice não fosse uma gata.


Lívia Santana.
Uberlândia - 05/2005
 
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